terça-feira, 25 de janeiro de 2011

No aniversário de São Paulo, um paulistano

Apesar do nome de artista de jazz, herança do pai - de uma família do sul dos EUA -, o artista plástico brasileiro Wesley Duke Lee nasceu em São Paulo, em 1931, e morreu no ano passado.

Lembro de ter pesquisado sobre ele para o vestibular. A sua experiência no exterior, fez dele um precursor dos happenings no Brasil.

Quem me conhece sabe que não sou fã da arte contemporânea, ou o pós-contemporâneo, arte conceitual ou os outros tantos nomes que se inventam pra se referir a uma arte que não faz referência a mais nada. Mas Duke Lee certamente foi um dos artistas brasileiros que através de sua arte dizia alguma coisa. Explorou várias técnicas, inclusive as novas tecnologias que surgiram na época, como o design gráfico a arte ambiente e a instalação, misturando as práticas inovadoras com as técnicas usuais. Mas em seu trabalho sempre permaneciam o desenho e a cor - elementos de um verdadeiro artista na minha opinião.

Hoje, muito se perdeu em dizer que tudo é arte. Para mim não. Sem os porquês, e as referências, não há como chamar de arte. Não entendo também referências absurdas, que permitem que se chame de arte um simples risco aleatório em uma tela ou deixar um cachorro morrer de fome.

Ele participou e fundou movimentos artísticos brasileiros que se inspiravam em outros movimentos, como o Realismo Mágico, o Movimento Rex (ou Grupo Rex) e o Nova Figuração.

Foi professor, lecionou no Mackenzie e também na Escola de Desenho Industrial de Ribeirão Preto (oh, que orgulho!). Lecionou também no exterior. Participou de Bienais e foi reconhecido internacionalmente.

Seguem abaixo algumas obras de Duke Lee.

O Rabino, 1973 - Óleo e grafite s/ papel - Coleção particular

O Jardim e a Alameda, 1974 - Pastel e óleo s/ tela, 185 x 120 cm


Marcadium D'y Capua, 1961 - Têmpera a cera, 63,5 x 45,5 cm



quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Happy Birthday Cézanne

Paul Cézanne nasceu em Aix-en-Provence, cidade do sul da França em 1839. Se estivesse vivo, hoje estaria fazendo 172 anos (ainda bem que ninguém vive tudo isso, até porque, talvez ele não estaria feliz com o que virou a arte de hoje).

A fortuna de seu pai permitiu que ele se dedicasse totalmente a arte. Morou em Paris grande parte da sua vida, graças ao amigo Émile Zola. Foi considerado um impressionista. Não seguiu normas nem regras, o que aprofundou seu horizonte para a pintura. Foi o pai do cubismo. Pintou naturezas-mortas, retratos, paisagens e banhistas.

O que se conhece muitas vezes de um pintor como Cézanne é o que vemos nos livros, e as grandes pinturas que o tornaram um gênio. Porém se esquece muitas vezes, que por trás de pintor, há muita pesquisa, trabalho e dedicação. Suas inúmeras maneiras de pintar, seus estudos sobre a forma e sua maneira de pensar é que o tornaram o pintor consagrado que conhecemos hoje.

Li uma vez, que quando ele começou seus estudos com natureza-morta, as frutas e flores chegavam a apodrecer e morrer, por conta do tempo que ele levava para pintá-las. Foi assim que ele passou a usar frutas artificiais, podendo retratar as diferentes vistas que se tem de uma mesma forma em uma superfície plana.

Dedicou-se a arte como os grandes gênios fizeram, por isso tem seu nome lembrado até hoje. Foi um precursor das artes que deixou em seu legado algo fundamental para a pintura moderna, que por vezes se perde na arte contemporânea.

Abaixo uma de suas naturezas-mortas:

Natureza morta com maçãs e laranjas, 1985-1900 - Óleo s/ tela - 73 x 92 cm - Museu D'Orsay


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Goya: O descobrimento de um artista e o encantamento por suas obras.

Conheci Goya na graduação. Suas aterrorizantes gravuras feitas com a técnica da água-forte, que chocam por serem uma crítica social me fascinaram. Ele se tornou meu objeto de estudo durante a Iniciação Científica e agora também faz parte dos meus planos para o futuro. Separei aqui, duas de suas obras com mesmo tema: a romaria, a peregrinação a Santo Isidoro. Usei esse mesmo tema em um encontro de estudos sobre a imagem (ENEIMAGEM) em Londrina e também em um trabalho da pós. Há pouco tempo descobri que tal comparação já havia sido feita por Robert Hughes em seu livro Goya, mas prefiro manter a minha versão de analise.

Trago aqui um pequeno recorte dos meus estudos. Mesmo sendo um recorte, o texto acabou se estendendo, mas insisto em dizer que vale a pena conhecer um pouquinho deste grande artista, embora eu entenda que não seja tão legal ler um texto longo. As referências eu deixei para o final.

Goya (1746-1828) viveu em uma Espanha marcada por acontecimentos históricos: perseguições religiosas, corrupção, injustiças, revoltas populares, invasões napoleônicas, ideais Iluministas, guerras civis, miséria e fome.
Goya trabalhou para a corte Espanhola onde realizava pinturas para Tapeçarias, uma delas é A padraria de San Isidro, de1788.

Santo Isidoro é o santo padroeiro de Madrid, portanto o dia é de festa na cidade. As pessoas se reúnem
para receber a bênção do santo, festejam o seu dia com alegria. A obra traz em seu primeiro plano, pessoas descansando, conversando, festejando, comendo e bebendo. Separando o campo onde as pessoas festejam da cidade, está o rio Manzanares, e ao fundo as construções de Madrid – observamos em especial dois edifícios: o palácio Real e a Catedral de São Francisco El Grand.
O dia é claro, o céu é um mix de um cor-de-rosa bem suave e um azul que vai de seu tom mais claro a um quase cinza. A luz do dia deixa mais
claro os brancos vestidos das damas e as construções madrilenas do fundo. O ponto de fuga se dá onde damas estão sentadas acompanhadas de alguns cavalheiros. No primeiro plano do quadro, à esquerda desse pequeno grupo, há uma mulher com um traje branco, sentada sob a sombra feita pela sombrinha que outra mulher segura, sua mão aponta algo ao fundo do quadro, mas seu rosto está virado para esse grupo que se apresenta no primeiro plano na obra. Um casal olha para essa mulher, talvez, esperando ouvir dela alguma coisa, mas ela está de boca fechada.
Existem outros personagens enigmáticos que Goya coloca em sua pintura. Logo atrás das duas damas do primeiro plano, estão dois cavalheiros, um olha as donzelas admirando-as, chega a descansar seu rosto sobre os braços apoiados em sua bengala – posição muito usada por Goya para representar a melancolia – o outro cavalheiro, ao seu lado, tem as feições monstruosas, chegando a ser até mesmo abobalhado, além disso, seu olhar está voltado para o espectador, diferentemente do cavalheiro que o acompanha, ele não admira as mulheres a sua frente, nem a festa, e nem mesmo o dia. Ele olha fixamente para fora da tela.
Representando o povo espanhol, Goya demonstra diferentes classes sociais: há mulheres com sombrinhas e várias carruagens (elementos que pertencem à classe alta) há também pessoas dançando, soldados uniformizados e pessoas comuns, todos em busca da benção do Santo.

Nos anos que seguem Goya deixa transparecer em suasobras o monstruoso, o fantasmagórico, o sombrio. A peregrinação a Santo Isidro de 1820-23, pertence à série de Pinturas Negras. É impactante o contraste entre essas duas obras. Nesta obra que traz uma multidão fantasmagórica não se festeja o dia do santo, apesar da peregrinação ser em seu nome, San Isidro não purifica mais. Não temos um cenário madrileno, as pessoas estão assustadas, aterrorizadas e com medo.

Há uma multidão fantasmagórica que segue em fila e ocupa grande parte da tela. Não se pode mais reconhecer o lugar, não há elementos que permitem identificarmos onde essas pessoas estão, quem são elas. São apenas uma multidão anônima, um grande aglomerado de gente em peregrinação. Não se pode ver se é dia ou se já é noite, há uma predominância de cores escuras, o cinza, o marrom e o preto, unem o céu e o relevo montanhoso com a tristeza e a lugubridade do povo.
Neste quadro, Goya mostra uma peregrinação que não purifica, sem sentido. Não se pode mais ter certeza do que eles buscam. O povo já não festeja. O medo toma conta das pessoas. Goya descobre que a origem não é a luz, que a origem é também cheia de sombras. Os peregrinos não são os mesmos. A fila sombria que segue é a procissão dos miseráveis da Terra. Há um imenso contraste, seja nas cores e na composição, como no que San Isidro se tornou para o povo espanhol.
No grupo que segue na frente, que carrega a procissão, vemos rostos de espanto, de medo, personagens que dirigem seus olhares para frente, para fora da tela. Talvez, depois de todo o sofrimento do povo espanhol, eles estejam enxergando a luz, a qual nunca viram, talvez seja esse o motivo da expressão assustada dessas pessoas, ou talvez, Goya tentou mostrar que após a longa caminhada em busca da luz (dos ideais Iluministas cridos pelo povo espanhol, e mesmo pela esperança de todo a humanidade em um mundo melhor) o espanto desses olhos arregalados, seja a descoberta dessas pobres pessoas, a descoberta das trevas. Nessa sombria peregrinação há apenas um homem com seu violão no aglomerado de pessoas, mas sua canção não parece ser de alegria.
Com o passar dos anos, Goya deixou transparecer nas obras sua amargura pelo mundo, seu desespero pela estupidez e pela ignorância do povo espanhol bem como o destino da humanidade. Embora essas duas obras não representem todo o artista melancólico que Goya foi, elas deixam clara a visão que ele teve do mundo e do povo de sua época. Expondo as contradições e o trágico da vida, ele mostra quão triste e sombrio o homem se tornou.



Referências:

HAGEN, Rainer, ROSE-MARIE. Francisco Goya 1746-1828 . Colonia: Taschen, 2004.
HUGHES, Robert. Goya. São Paulo: Cia das Letras, 2007
OSTROWER, Fayga. Goya: artista revolucionário e humanista. São Paulo: Imaginário, 1997.
PASSETI, D. V. Goya e o bestiário do poder. In: BAUDELAIRE, C. et al. Os Caprichos de Goya. São Paulo: Imaginário, 1995, p. 33-39.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ócio Criativo: a promessa de 2011


Sabe aquelas promessas que a gente faz na virada do ano? Esse blog foi uma das minhas. Ele já existia há algum tempo, mas eu não sabia o que escrever. Aliás, escrever é algo que sempre gostei, acho que desde a adolescência, mas a convivência diária com um jornalista, me fez perceber o quanto um bom texto pode influenciar as pessoas, desde o simples gosto pela leitura, até o interesse persistente em determinado assunto. Repaginei o blog e aqui estou com a promessa de um texto por semana.

Em 2009, me formei em Arte Visual pela UEL (Universidade Estadual de Londrina ou, para os amigos conterrâneos de São Joaquim da Barra, Universidade Estadual Longe pra caramba), e ainda não sabia direito o motivo de ter colocado o X nessa opção de curso para o exame do vestibular. Em alguns momentos no decorrer dos quatro anos da graduação, me senti um peixe fora d'água até descobrir o grande leque que se abre quando o assunto é arte. Participei de dois grupos de pesquisa com bolsa para alunos de Iniciação Científica, e foi aí que descobri o que eu mais gostava, o que eu sempre gostei desde criança e até então não tinha percebido: estudar. Terminei a graduação - aqueles quatro melhores anos da nossa vida, que passam voando e que só quem passou pela "vida universitária" vai guarda-los pra sempre na lembrança - e decidi que não podia parar de estudar. Encontrei uma pós-graduação: História da Arte, e o melhor: em Ribeirão Preto (bem mais perto que Londrina, apesar de saber que perto ou longe depende do ponto de vista). Percebi que não quero parar com isso nunca mais. E aquele X na escolha tão precipitada da vida de uma vestibulanda, faz todo o sentido na minha vida agora.

Ócio Criativo foi escolhido por conta de uma professora da graduação, que também foi minha orientadora na Iniciação Científica, e sempre dizia que devíamos aproveitar o tempo vago, o ócio da vida de um estudante, aquele tempo em que se permite não fazer nada, para produzirmos ou criarmos algo útil. Eu não sou muito boa com desenho, pintura e escultura. Me arrisquei na fotografia e no vídeo por um tempo e gostei. Mas dentre as possibilidades da arte com a qual mais me identifico é observar. E como eu gosto disso, observar e escrever sobre. Aprendi que ver é diferente de olhar, que é diferente de observar. Apreciar uma obra de arte demanda tempo, é preciso paciência e calma. É preciso descansar o olhar sobre a obra. É sobre esse olhar que pretendo falar aqui. Não um olhar comum, coletivo, mas o meu olhar, a minha análise de obra de arte. Boas leituras (e promessas) para 2011. Bem-vindos e apreciem.